Blog de notícias sobre o livro de Deborah Goldemberg, Editora Carlini & Caniato.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Cartas de Leitores 2

Por Sérgio Rocha Brito Marques:
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Deborah,
Acabei de ler "O Fervo da Terra" que tem uma leitura que eu poderia dizer ágil, mas num sentido mais estrito, porque o leitor precisa seacostumar com a voz de Juruna, o que não vem de imediato, mas leva realmente poucas páginas. Aos poucos, parece q vc está mesmo diante dele e a coisa flui.
Fico pressupondo que todo escritor gosta de saber das impressões do leitor e é por isso que estou escrevendo, de intrometido mesmo...rs...rs...Acho que posso destacar alguns pontos positivos, q vc pode levar adiante, pq realmente funcionaram, ao menos comigo.
A estrutura da novela é bem imaginada: como se fosse um off (lembra aquele programa da TV Cultura, chamado "Ensaio", em que uma voz em"off" pergunta e só temos acesso ao que o cantor homenageado responde), Juruna vai contando a história de Luis de Castilhos, e que, por tabela, também é a sua história: como eles são deslocados de suas origens, ou seja, como a terra ferve e, entre as bolhas da fervura, suas vidas ficam revolucionadas. Na verdade, esta narrativa é a narravita de uma narrativa, pois existe um paralelo bastante claro (e nem precisa ser consciente de sua parte, basta o efeito que vc conseguiu) entre aqueles que ouvem a narrativa no tribunal ("história contata para nós, do banco dos réus de um tribunal, pelo índio Aké", capítulo 17) e a narrativa propriamente de Juruna (Aké). A narrativa reproduz, nesse formato espelhado de dizer o que o outro diz, a própria narrativa de Juruna, que fala de Castilhos diretamente, e de sua própria história, indiretamente. É a saga da "luta civilizatória"de Castilhos, concebida como ideal, "manchada" pelo garimpo, que tudo vem desestruturar em sua vida. A história de Castilhos é, também, a história de Juruna; a desestruração de Castilhos com o garimpo é, também, a desestruturação da vida de aldeia de Juruna: uma desestruturação sucede à outra; e, por fim, a narrativa de Juruna é "desestruturada" pela revelação final do contexto em que a história é contada: Juruna não conta para nós, leitores, a sua história, eleconta para um tribunal que é, "em última instância", quem conta a história. A rodovia desarticula a vida do índio e o garimpo desarticula a vida do colono; "estruturando" tais desarticulações, está o Estado, promovendo deslocamentos humanos desastrados, sendo insuficiente para restabelecer a "ordem" que ele mesmo instaurou e, por fim, "ditando" a narrativa, a partir de um relato de tribunal, órgão ordenador por excelência do Estado. Nesse contexto estatal de"estruturar desarticulações", não é à toa que um olhar estrangeiro já nos tenha enxergado como uma civilização que conheceu a decadência, antes de conhecer o auge.
Por outro lado, chei que vc faz muito bem aquilo de localizar o conflito (não o da novela em si, mas o da narrativa de um modo geral, pq acho que vc tem facilidade para isso, até lembrando da sinopse q vc esquematizou na nossa última sessão, onde o conflito, como em "Ofervo...", estava muito claro) e, aqui, ficou muito claro e bem amarrado como o Governo Federal desloca pessoas de uma região para outra, como interfere (ou tenta interferir) nos conflitos, como os garimpeiros manipulam o discurso, para costurar alianças, etc. Localizar e segurar o conflito exigem destreza na ação dramática, quetem de se equilibrar como numa corda bamba; símbolo disso é o próprio narrador: Juruna cairá para qual lado, o dos garimpeiros que dizem quea terra é sua, ou o do patrão a quem ele é fiel, sendo infiel na atração pela mulher dele? Estas confusões tão humanas, sutis, sem respostas e bem explicitadas pela sua narrativa devem ser destacadas,para que vc, que as trabalhou bem aqui, possa lançar mão delas sempre que desejar. O texto, pela expressividade, comporta, inclusive, a encenação dramática, se transformado para texto de teatro (e não é todo texto que tem esta possibilidade/qualidade).
Também vale a pena destacar falas literárias, que dão um sabor especial ao texto. Não vou enumerá-las, mas refiro-me, por exemplo, a "mais lua do que a terra", imagem mais do que eloquente da transformação operada pelo garimpo e pelo abandono; e "quando a gente fica mais amplo de vida", para expressar o peso da experiência vivida; e, ainda, "o homem parecia que estava mesmo na porta do inferno", noconflito para matar ou morrer por uma mulher. Enfim, estão aí algumas impressões superficiais, de leitor rápido, quevc deve ler sem pretensões.
Um beijo e parabéns,
Sérgio.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O Fervo da Cultura

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